Vida policial: da paz à guerra em fração de segundos

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Poucas profissões são tão instáveis quanto a ‘policial’. Em fração de segundos, o que exalava harmonia e tranquilidade pode se transformar num cenário de confronto armado. E o que era paz vira guerra.

Mergulhado num poço de violência nunca visto em sua história, o Brasil discute cada vez mais as inúmeras alternativas que devem ser adotadas para frear o avanço da criminalidade. Uma delas é “fazer com que o sistema de justiça criminal (as polícias, o Ministério Público, o Judiciário e o sistema prisional) se aproxime mais da sociedade”, como defendeu o coordenador do Núcleo de Estudos em Segurança Pública da Fundação João Pinheiro, Eduardo Batitucci, em entrevista à Rádio Câmara.

As formas de ‘aproximação’ são variadas. Por exemplo, o tenente Wanderley e o cabo Emanuel Diniz (foto) fizeram questão de registrar um desses momentos. A viatura vai passando devagar e estaciona não para executar as abordagens de praxe, mas para brincar algumas partidas de ‘bola de gude’ com as crianças daquela área onde falta tudo, menos violência.

Divertem-se por alguns minutos, fazem fotos, estreitam como nunca os laços historicamente separados. Tudo na santa paz, como todo e qualquer ser humano – policial ou não – em sã consciência deseja.

Mas a área é sabidamente de risco. Falta tudo, menos tráfico de drogas e violência. Depois daqueles momentos de pura harmonia, a guarnição segue seu destino fazendo rondas na comunidade.

Numa dessas, pode se deparar com homens armados e dispostos a defender o ‘lucrativo’ negócio de drogas que acaba com a vida [inclusive] daquelas crianças sorridentes na foto. Agora, a abordagem é daquelas que dizem “mão na cabeça!” E se houver reação, o que era paz vira guerra em fração de segundos.

E se houver mortes? E se um dos mortos for familiar (pai, irmão, etc.) de um desses meninos da foto? Como a criança vai ‘digerir’ a tragédia? O que os adultos da família enlutada dirão para as crianças sobre quem estava certo ou errado no confronto? O que se ensina a essas crianças do Brasil sobre ‘polícia’?

Bom. Num eventual confronto, a única certeza é de que não há tempo para pensar em nada disso. Se na hora da brincadeira, onde o barulho das bolinhas de gude batendo uma na outra desperta o sorriso de todos em volta – e permite um mundo de reflexões sobre a vida –, a iminência de um confronto armado é implacável com qualquer raciocínio sociológico. O que era paz em tão pouco tempo vira guerra.

Wanderley e Emanuel são pessoas/profissionais especiais, porque vivem anos a fio administrando essa corda bamba mental que a qualquer momento pode jogar tudo pelos ares.

Se você tem interesse de ingressar na carreira, saiba que poucas profissões são tão instáveis quanto a ‘policial’.